Central do Brasil: sessões lotadas e aplausos em Berlim

Patricia Moribe

Central do Brasil, o terceiro longa-metragem de Walter Salles está em temporada de caça aos ursos de Berlim. Sessões lotadas, muitas entrevistas e boas críticas internacionais. Mas Walter prefere mostrar-se tranqüilo, nada de nervosismo ou ansiedade: „A gente só pode esperar com certo distanciamento e certamente com muita humildade; como a Fernanda (Montenegro) diz, prêmio é acidente". A lista dos vencedores dos Ursos de Berlim será anunciada no domingo, dia 22 de fevereiro.

O Central do título não se refere somente à estação ferroviária do centro do Rio de Janeiro, mas também a algo mais implícito, visceral, algo a ver com procura, Brasil, sertão, nós. Se em Terra Estrangeira, seu filme anterior, o diretor mostrava brasileiros buscando sua identidade na terra mãe, Portugal, agora temos dois personagens buscando seus caminhos no interior do Brasil, atrás de um pai, de um país. Num a imigração, noutro, a migração interna. Naquele, a atmosfera era a do caos da era Collor. Agora, segundo o diretor, ha uma nova questão: „o desejo de encontrar um outro país, que seja mais simples e glórioso que o anunciado anteriormente, que tenta ser mais humano, com mais compaixão".

A trama é extremamente simples. Fernanda Montenegro vive Dora, professora primaria que por um real escreve cartas para pessoas analfabetas que passam pela movimentada estação. E por dois reais compromete-se a enviá-las também. Cartas que Dora nem sempre envia - passam antes pelo seu crivo prático e de sua vizinha areada, vivida por Marília Pera. O destino das missivas pode ser também o lixo, em caso de unanimidade das duas, ou o limbo de uma gaveta da cristaleira, no caso de as duas amigas discordarem de julgamento. Um dia, uma mulher aparece arrastando um filho emburrado de dez anos. A carta é para o pai do garoto, que mora no interior do Nordeste. O menino quer conhecer o pai que nunca viu. A carta vai para a gaveta. Dias depois a mulher reaparece diante de Dora, dita uma segunda carta e pouco depois morre atropelada na saída da estação, diante do filho. O menino, cujo nome é Josué, fica uns dias zanzando pela estação, arredio a qualquer ajuda, num mundo escuso em que um ladrão de walkman é sumariamente eliminado e criancas supostamente encaminhadas para a adoção ilegal correm o risco de terem seus orgãos postos à venda. A contragosto, movida por uma compaixão que lhe é incomoda e desconhecida, Dora decide levar o menino para conhecer o pai. Uma longa viagem os espera, cheia de imprevistos, que vai derrubando as desconfianças de Josué e o cinismo da escrevinhadora.

O personagem de Dora foi desde o início feito pensando-se em Fernanda Montenegro. E Fernanda entregou-se ao personagem, mais uma interpretação digna de ser sempre lembrada, como foi em A Falecida e Eles não Usam Black Tie. „A Fernanda tem toda a chance de concorrer pela sua excelência e sensibilidade da sua interpretação", diz Walter, acrescentando cauteloso, „mas não ha nenhuma certeza que o resultado vai nessa direção". E quem não chega a roubar, mas divide a cena é o menino Vinícius de Oliveira, 10 anos. Até encontrar o protagonista perfeito de Josué, a produção levou um ano testando mais de 1.500 meninos de várias partes do Brasil. Num certo dia, no aeroporto Santos Dumont, Vinícius se apróximou de Walter e pediu-lhe ajuda para pagar 50% de um sanduíche, pois o tempo chuvoso não tinha sido bom para engraxar sapatos. Walter aproveitou para fazer um acordo: em troca, queria que o menino fizesse um teste para um filme. „Nunca fui ao cinema", foi a resposta. Mas concordou. No entanto, no dia marcado, ele não apareceu e a produção teve de ir catá-lo no aeroporto. Feito o teste, a escolha estava feita. „Na verdade, ele nos achou", diz o diretor.

A idéia de Central do Brasil surgiu quando Walter dirigia Socorro Nobre, documentário sobre a correspondência entre uma presa condenada a 36 anos e o artista plástico Frans Krajcberg. Tantas mudanças na vida de uma mulher a partir de uma carta. Respondida. E o que acontecem com cartas não respondidas? A partir dessa dúvida, veio a idéia de Central do Brasil. Numa bela manhã, Walter acordou com a sinopse pronta e anotou para não esquecer. Enquanto filmava Terra Estrangeira, deixou o roteiro por conta de dois estreantes na faixa dos 25 anos: João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. O primeiro tinha já escrito e dirigido curtas, o segundo tinha colaborado no roteiro de Terra Estrangeira. O projeto ganhou dois prêmios importantes: o do Instituto Sundance e da companhia japonesa NHK e outro, do ministério da cultura da França. O roteiro foi escrito em dois anos e teve mais de 20 versões. „Conseguimos um roteiro solido, o

que nos permitiu a improvisação - pode parecer paradoxo, mas sabíamos para onde ir e o que queríamos conseguir, e isso só é possível com um plano bem estruturado".

O trabalho com os atores levou cerca de quatro meses. O roteiro foi primeiro ensaiado como uma peça de teatro (assim como Terra Estrangeira). Depois a equipe se dirigiu à Central do Brasil, onde foi armada a banquinha onde Dora-Fernanda escreve suas cartas. A equipe se surpreendeu com o numero de passantes que queriam ditar cartas. Depoimentos verdadeiros, para a câmera. Cartas de amor, agradecimento, saudades, ódio. Fernanda conta: „Primeiro dia de filmagem, dentro da Central, um lugar desesperador. E, por uma alquimia da vida, as coisas aconteceram". Tanto que, dos depoimentos que aparecem no filme, 70% são de cartas incorporadas, ou seja, reais. E quem aparece ditando a primeira missiva é justamente a hoje ex-presidiária, que um dia escreveu uma carta desesperada a um artista plástico estrangeiro enfurnado no litoral do Nordeste.

A seguir Walter fala mais sobre Central do Brasil e sobre cinema, cinema e cinema.

Você já viu os outros filmes concorrentes ao Urso de Ouro?

Alguns. Gosto muito do Good Will Hunting (Gus Van Sant). Acho Wag the Dog (Barry Levinson) inteligentemente roteirizado e atuado de forma excepcional por Dustin Hoffmann e Robert de Niro. Vi o filme do Tarantino (Jackie Brown), que me interessou porque pela primeira vez me parece que ele usou personagens que poderiam não ter saído de histórias em quadrinhos, ou seja, interessou-se em carnificar pelo menos dois personagens: o de Pam Grier e Robert Forster. Não vi Big Lebowski, mas sou fã dos irmãos Coen.

A personagem de Marília Pera, que faz a vizinha.

Marília é muito generosa, aceitou fazer um papel pequeno. Em Sundance, a viúva de Lee Strasberg (fundador do Actor´s Studio, célebre escola de atores em Nova York, por onde passaram Marlon Brando e James Dean) perguntou-me quem era aquela atriz maravilhosa. Ela não tinha visto Pixote e estava descobrindo a Marília ali.

A opção pelo road-movie.

O road-movie tem uma função importante, que é a de permitir a existência do arco psicológico, mudando a percepção do personagem quando este confronta o desconhecido. E isso gera mudança, movimento. O que mais me interessou não foi a viagem em si, iniciática para o garoto, mas sim a mudança pela qual passa a personagem de Fernanda.

Fontes de inspiração

O cinema novo, basicamente, que misturou elementos da Nouvelle Vague francesa e do Neo-realismo italiano. Gosto do trabalho dos diretores italo-americanos, como Martin Scorcese e Francis Ford Copolla, este ultimo descontando o que fez nos últimos 15 anos. Admiro os primeiros trabalhos de Wim Wenders também. Mas de todos, Antonioni é o que me inspira mais. No Brasil, Nelson Pereira dos Santos. E Limite, de Mário Peixoto, é para mim o mais belo dos filmes brasileiros.

O Novo Cinema brasileiro

Lembro-me da época entre 90 e 94, quando as revistas se perguntavam algo como "que pais é este?", época em que o cinema brasileiro quase não produzia. Agora que o cinema está de volta, a primeira preocupação é responder a essas perguntas: quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Esse é o denominador comum dessa produção plural e muito interessantes que temos hoje. O segundo elo comum e o desejo de cinema, de voltar a usar uma gramática que estava fora de prática. Os cineastas da nova geração querem ter algum tipo de dialogo com o cinema novo, que é uma herança muito preciosa.

O que é isso companheiro?

Gosto muito do filme. É uma visão corajosa de uma época muito sensível, e preciso ter coragem para abordar esse tema. Na parte do seqüestro há uma série de seqüências maravilhas que criam uma tensão dificilmente vista em filmes brasileiros. O Bruno Barreto é um diretor de latitude, que passa da comédia para um suspense político com eficiência e grande qualidade. Poucos diretores tem essa qualidade. É o caso de John Huston, Billy Wilder. Eu não. Gosto de seguir temas específicos, todos os meus trabalhos lidam de uma maneira ou outra com busca de identidade, de amor, de libertação através da descoberta do afeto.

Central do Brasil é em termo de estrutura extremamente simples, direto, em comparação aos seus trabalhos anteriores.

Terra estrangeira foi feito para falar de um empo extremamente caótico, a virada dos anos 80-90, uma geração em crise, num pais também em busca de sua própria identidade. Agora estamos falando da descoberta do afeto, da compaixão, oito anos após a virada da década. E por isso é um filme mais calmo no seu contar

Teve medo de ser piegas?

Não. Deixei-me levar pela emoção do momento e das cartas. A voltagem emocional do filme foi determinado pelas primeiras cartas. A maioria delas são de pessoas que vieram e disseram que queriam ditar uma carta, essa pessoas não tem vergonha de ser emotivas, de dizer o que sentem, de chorar. Estamos falando de gente que não tem voz, que precisa se exprimir, por isso o filme funciona numa ordem essencialmente emotiva. Se vai ser considerado piegas é secundário para mim, também não espero unanimidade critica.

O Vinícius tem futuro como ator?

Espero que sim. Ele tem talento, o que por si só não é suficiente, mas também tem seriedade e compenetração e espero que ele continue tendo.